24/12/2015

Oneshot: Noites de Inverno


Para Yan Carlo
Afinal de contas, o que eu sinto por você é muito maior do que o oceano que está entre nós. Eu vou te esperar o tempo que precisar, meu anjo. Te amo.

New York, 24 de Dezembro 2014

Sozinha, absorta em memórias e sentimentos que se contorciam em uma fraca brasa de lembranças, Erin bebericava de uma taça de Jacob's Creek quando Peter Roberts entrou no escritório.

- Senhorita Carter? - ele perguntou com um semblante surpreso.

- Boa tarde, Peter. - Erin disse com a maior naturalidade do mundo.

 Peter Roberts era um senhor robusto, cinquenta e todos anos. Tinha o sorriso amarelado, cheiro de tabaco e uma voz de locutor de rádio terrível.

- O que faz aqui, menina?!

- Ah, - ela encarou a taça - estou bebendo.

- Bebendo? - Peter esbravejou - Bebendo?! Você sabe que dia é hoje?

- Ahn... - ela pensou um pouco - Terça?

- Senhorita Carter, hoje é natal!

- Ah, sim.  Claro. É natal.

- Você não devia estar com sua família?

 Erin soltou um suspiro triste, daqueles de partir o coração.

- Minha família está toda em Chicago. - ela olhou pela janela - Além do mais, eles não dão a mínima para o natal.

 O céu plúmbeo de New York estava tão triste e sem vida quando o rosto pálido de Erin. Ela já não sabia se nevava lá fora, ou dentro de si mesma.

- Mas... o natal é um feriado para se comemorar em família.

- Bom, eu nunca fiz isso. Geralmente eu ia para a casa de outras pessoas.

- Outras pessoas? - Peter coçou a cabeça calva.

- Sim. - ele pode jurar que viu traços de um sorriso no rosto de Erin - De amigos, colegas, paixões, de um professor...

- Professor?

- É, eu já passei o natal na casa de um professor meu. Foi hilário

- Interessante. - Peter puxou uma cadeira e apontou para o vinho - Jacob's Creek?

- Australiano.

- Por que não me conta mais sobre seus natais?

- Não quero parecer indelicada, mas o senhor não parece ter tempo de sobra para ouvir sobre. - quando Peter deu de ombros, Erin decidiu continuar - Certo. Por onde começo? - olhou para o nada e tomou um gole do vinho - Ah, sim! Dois mil e três...

 Chigado, 24 de dezembro de 2003

 Brad Simpson era meu melhor amigo desde o primário. Pequeno, magricela, com dentes de coelho e inteligente que só. Meu primeiro Natal de verdade foi com ele. A família Simpson foi extremamente gentil ao me receber em sua casa.

 Naquela mesma noite nós dormimos em colchões na sala de estar, já que sabíamos que Papai Noel nenhum apareceria por ali.

- Erin? - ele sussurrou, o rosto pouco iluminado pelo fogo da lareira.

- O que foi?

- O que você quer ganhar de Natal?

- Bom, - sussurrei- não sei. Talvez um livro. E você?

- Um beijo.

- Um beijo? - arregalei os olhos.

- Sim. Um beijo seu.

- Brad... Não vou te dar um beijo. Nós somos amigos, né?

- Ah... Você sabe que eu não te vejo só como amiga á muito tempo. - Brad se sentou e fitou a madeira queimando.

- Brad... me desculpe, mas...

- Tudo bem, - ele me interrompeu - acho que gostaria de outra coisa.

- O que?

- Que doesse um pouco menos.

- Ué... - o encarei - Mas o que raios está doendo?

- Amar você.

 Um silêncio angustiante pairava sobre nós naquela fria noite de inverno.

- Desculpa. - murmurei.

- Tudo bem... - ele sorriu para mim - acho que amor, quando é amor, tem lá suas dores bonitas.

New York, 24 de Dezembro de 2014

- Você e Brad não ficaram juntos depois? - Peter perguntou enquanto bebia da taça de Erin.

- Não. Nossa amizade continuou forte até a faculdade, quando me apaixonei pelo meu professor. Brad não encarou bem a situação e acabou por se afastar de mim.

- Que horrível.

- Foi mesmo.

- E o professor? Foi com esse com quem você passou o natal?

- Sim. - Erin riu - Foi no meu primeiro ano da faculdade.

New York, 24 de Dezembro de 2008

- Erin, vamos embora! - Mary me puxou pelo braço.

- Espera uma pouco... - murmurei enquanto me escondia atrás de uma prateleira de cereais.

Mary e eu éramos colegas de quarto. Ela era uma garota adorável. Religiosa, recatada, dedicada... e acho que por esses motivos ela se desesperou quando lhe contei que estava apaixonada pelo Senhor Andrew, nosso professor.

- Eu não vou mais apoiar suas doideiras, Erin Carter!

- Ah, vai sim...

 Nós estávamos escondidas dentro do super-mercado, meio que seguindo o Senhor Andrew. Ele estava bem concentrado na prateleira de comidas congeladas.

- Eu vou lá falar com ele. - abri um sorriso sacana.

- Você tá louca? Isso não é certo. Se continuar a ser uma garota má você não vai pro céu.

- Mary, - bufei - deixa eu te explicar uma coisa. Garotas boas vão para o céu. Garotas más vão para onde quiserem.

 Me aproximei do Senhor Andrew com a cara mais inocente do mundo.

- Professor?! O que faz aqui?

- Oh! Oi, senhorita Carter. Bom, eu estou só escolhendo minha janta...

- Comida congelada? Mas hoje é natal.

- Eu vou passar o natal sozinho.

- Entendo. Eu também vou. Minha família toda está em Chicago, e meus amigos vão viajar.

- Puxa! Eu...

- É tão triste pensar em ficar sozinha num dia como esse. - o interrompi.

- Eu sei, mas...

- É terrível mesmo. Acho que vou chorar a noite toda.

- Sim, mas...

- Seria tão bom se outra pessoa solitária me convidasse para passar esta noite tão especial com ela. - fiz biquinho.

 Ele abaixou a cabeça e riu.

- Escuta, você não gostaria de passar a noite comigo?

 New York, 24 de Dezembro de 2014

- Isso realmente aconteceu? - Peter ria descontrolado.

- Sim. - ela ria junto.

- E depois?

- Aconteceu muita coisa durante aquela noite. - os 13,4% de teor alcoólico do Jacob's Creek coraram Erin.

- Você deve ter aprontado umas boas na faculdade, não?

- É.

- E se apaixonou alguma vez?

- Sim. Não necessariamente na faculdade, mas... - as maçãs do rosto de Erin adquiriram um tom rosado, e seu olhar acompanhou os flocos de neve que caiam preguiçosamente sobre a movimentada avenida. - Faz tempo...

 Paris, 24 de Dezembro de 2009

 Era uma fria noite de um inverno romanticamente parisiense. As ruas não estavam tão agitadas ás nove da noite, em relação á última semana. Aquele devia ter sido meu último dia de férias em Paris, se um maluco envolto em um sobretudo escuro não tivesse cruzado meu caminho.

- Táxi! - ele gritava desesperado - Um táxi pelo amor de Deus.

- Ei, moço, se acalme! - me aproximei com cautela.

- Ah, uma americana! Graças á Deus. - ele soltou uma risada falsa com os braços erguidos 
- Eu preciso de um táxi, tipo... agora!

 Seus olhos eram de um castanho ton sur ton incrível. Seu cabelo, que tinha mais ou menos a mesma tonalidade, esgueirava-se pelo contorno do rosto em ondas rebeldes e bagunçadas. Sua pele era de um moreno bem clarinho, e seu sorriso... ah, seu sorriso era a coisa mais linda e delicada do mundo..

- Fique calmo. Creio que vá demorar um pouquinho, mas logo um táxi aparece por aqui. Qual seu nome?

- Carlo. Carlo Riveros. E você é...?

- Erin Carter. - apertei sua mão.

 Uma garoa gelada chorou sobre nós, enquanto nos apressávamos em direção á um toldo.

- Você também precisa de um táxi, senhora Carter?

- Senhorita. - o corrigi, e notei um sorriso de alívio disfarçado em seu rosto - Na verdade não preciso com tanta urgência quanto o senhor. Não tenho nenhum lugar para ir mesmo. - dei de ombros.

- Mas é na...

- É natal, eu sei. Estou de férias.

- Sozinha?!

- Sozinha.

- Uau. Bacana.

 Por um instante tudo o que pude ouvir foi o impacto das gotas de chuva contra o chão, e o vento soprando baixinho.

- Aquilo que foi não pode mais deixar de ter sido. Passou a existir. Tornou-se, então, mais um fato para a eternidade, profundamente obscuro e misterioso. Indefinível como a vida. - ele disse.

- O que disse?

- Vladimir Jankélévitch. Filósofo e musicólogo francês. Não conhece?

- Acho que já ouvi falar. Morreu á alguns anos, não? Deu na tevê.

- Sim. Foi um homem incrível. Ele gostava de escrever sobre os mistérios da vida em dias de chuva - outra vez o vento frio soprou, mas eu sentia o sangue ferver em minhas veias. - Faz sentido, não é? Quer dizer, não podemos voltar atrás. Determinado acontecimento passou a existir, e não pode desaparecer.

- É... - respirei fundo, tentando entender que diabos de assunto era aquele - Mas é indignificante. Indefinível.

- Sim. - ele sorriu - Indefinível.

- Indefinível. - sussurrei depois de alguns segundos.

- Veja, - ele apontou - um táxi! - e correu em direção á ele - Você vem?

- Agora não.

- Okey. Au revoir, Indefinível Erin.

- Au revoir, Carlo Riveros.

 New York, 24 de Dezembro de 2014

 - Carlo Riveros? - Peter arqueou as sobrancelhas e sorriu. - Carlos e Erin!

"Ai, caramba. O velho enlouqueceu", ela pensou.

- Interessante. Vai me dizer que nunca mais o viu?

- Imagina! - Erin sorriu - Decidi ficar em Paris até o ano novo, e o encontrei novamente em uma cafeteria dois dias depois.

- Jura?!

- Sim. Nós namoramos, noivamos... Que coisa, né? Mas como uma amante incurável eu gostaria que nossa história de amor terminasse por uma tragédia, ou algo realmente significativo. Porém, nossas vidas simplesmente tomaram rumos diferentes e nos separaram. Embora eu o ame com tudo que posso até hoje, não sei lhe dizer o que ele fez da própria vida.

- Sim, sim. - Peter parecia estranhamente empolgado - Escuta, já que você tem experiência em passar o natal com colegas, amigos, ou sei lá mais o quê, não gostaria de passar o natal comigo e minha família?

- Ah, senhor Roberts! É um convite adorável, mas...

- Imagina, não vai incomodar. Eu só vim buscar um negócio que minha mulher pediu, pois meu afilhado vai passar o natal conosco e...

- Okay, okay. - Erin se levantou. Se o senhor faz questão...

***

A casa dos Roberts era quente e aconchegante. Erin não tinha muita certeza se devia estar ali. Sentia-se deslocada. Embora o senhor Roberts e sua mulher fossem pessoas muito carinhosas e amáveis, era estranho um convite tão inesperado.

- Sabe, - disse Mary - esse tempo terrível está empacando os aeroportos. Vê se pode, meu afilhado chegar ás sete da noite em plena véspera de natal?

- Que terrível. - Erin conseguiu dizer. Aquela mulher não calava a boca.

- Você vai gostar dele. Vocês tem a mesma idade.

 Os poucos instantes de silêncio com os quais a senhora Roberts a agraciou foram destruídos pelo vozeirão de Peter que ecoou pela casa:

- Chegamos!

 Mary caminhou até a sala e Erin a seguiu, parando bruscamente logo depois.

 Um vento passageiro típico de uma noite de inverno atravessou a porta aberta, quando seus olhos pousaram no castanho universo ton sur ton que tão bem conhecia.

- Olá, Indefinível Erin.

Nenhum comentário:

Postar um comentário